Match Point

 

Na primeira cena de Match Point, de Woody Allen, uma bola de tênis salta de um lado ao outro da quadra enquanto uma voz em off discorre brevemente sobre aquilo que foi um dos temas centrais de Maquiavel, o escritor florentino autor de O Príncipe: a virtude (ou virtù) versus a fortuna (a sorte). A bola bate na rede, a imagem congela e ficamos sem saber por enquanto de qual lado ela irá cair, quem irá perder e quem vencerá. 

 

Sob uma trama convencional que envolve um casamento frustado e um adultério, e com imenso rigor e elegância, o cineasta novaiorquino debruça-se sobre esse tema instigante e sem resposta fácil: o quanto de nossos êxitos e fracassos na vida dependem de nossa coragem e ousadia em enfrentar os problemas e desafios que ela nos impõe e o quanto eles dependem da sorte, pura e simplesmente. 

 

Maquiavel defendeu em seu livro, contra a opinião dominante de seu tempo, que o maior ou menor êxito de um príncipe na salvaguarda e manutenção de seus domínios depende muito mais da sua bravura, sabedoria e coragem, da sua virtude, enfim, do que de sua sorte ou fortuna. Sendo que esta poderia ser conquistada e tornada sua aliada, como uma "deusa boa, uma mulher que deseja ser seduzida e sempre pronta a entregar-se aos homens de virtù". Uma visão de mundo ligada estritamente a esfera política das ações  humanas e substancialmente contrária a crença na predestinação, a crença na fatalidade e a impossibilidade dos homens alterarem o rumo de suas próprias vidas, típicas do cristianismo mais ortodoxo.   

 

Chris, o protagonista do filme, é um ex-jogador de tênis profissional que atualmente vive das aulas que dá a membros da alta burguesia e da aristocracia inglesa. Mas ele quer mais. Como um jogador ambicioso, ele não deseja estar apenas entre os primeiros, ele quer ser o primeiro. Quando a sorte lhe sorri ao conhecer Tom, seu futuro cunhado, ele a agarra com unhas e dentes e faz uso ostensivo de todas as suas capacidades no alcance daquilo que para Maquiavel era legítimo que os homens desejassem: honra, riqueza, glória e poder. Ele casa-se com Chloe, que apaixonara-se por ele, e consegue dar o primeiro salto rumo a uma vida mais próspera. O que vem depois disso é a luta para não pisar em falso e deixar que a fortuna lhe escape das mãos. E se realmente pensada como mulher, esta última então estaria dividida em duas no filme, oscilando contra e a favor alternadamente: a própria Chloe e a bela Nola Rice, ex-namorada de Tom, e amante de Chris, a garota que potencialmente pode por tudo a perder.

 

Com grande habilidade, Woody Allen opta por uma forma de narrar muito sóbria e segura, sintética, que traduz em grande medida a astúcia e impetuosidade de seu personagem principal. Ela parece estar em sintonia também, essa forma, com uma certa neutralidade de julgamento das ações de Chris por parte do cineasta americano, que apenas constata e não julga, cabendo somente ao espectador emitir algum juízo de valor, e reagindo, falo por mim, com espanto e admiração (sentimentos contrários) no momento em que Chris toma sua decisão mais difícil. Numa cena, inclusive, que é, não por acaso, a segunda (ou terceira, não sei) citação de Dostoievski em Match Point.

 

E o diálogo com Crime e Castigo, finalmente, está evidenciado no filme quando vemos uma imagem de Chris lendo essa obra monumental da literatura universal. Mas se Raskolnikov, o protagonista do livro, fatalmente terá que remir sua culpa no final da narrativa, o mesmo talvez nunca venha a acontecer com Chris, que, passando por cima dos ditames da moralidade convencional, soube fazer de seus vícios, como exortava Maquiavel, sua maior virtude.  

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